residência via

Os artistas vinculados ao OM-LAB [UFRGS|CNPq] através de diferentes estratégias de errâncias e de imersões temporárias no cotidiano se propuseram realizar uma série de aproximações poéticas no espaço urbano do 4º Distrito de Porto Alegre. Entre as proposições destacamos a realização da RESIDÊNCIA VIA, a partir do espaço do OM-LAB, no Vila Flores, em Porto Alegre-RS-Brasil.

RESIDÊNCIA VIA [1]

Pedro Ferraz.  Como sempre foi (2017) Once in a lifetime (2017). Residência VIA. Porto Alegre-RS-Brasil: Sala OM-LAB no Vila Flores, agosto/2017. 

"A residência teve como foco as minhas pesquisas com experimentações sonoras utilizando de microfones de contato que produzi neste período inicial e acoplando a estes coloquei microfones em objetos da sala e outros que havia levado comigo. Fiz também diversas caminhadas nos primeiros dias para conhecer as nuances do local no qual estava inserido e fui estendendo meu tempo de trabalho na sala cada vez mais para que pudesse estar lá no turno da noite. (...) Desde o início da residência eu tinha em meu pensamento a minha imagem como a imagem de um alienígena de um filme de ficção científica. Como um ser que adentra um local que não lhe é comum e utiliza de diversos aparelhos, alguns que ele modifica, outros que ele cria para poder compreender este ambiente em que se encontra".  (Pedro Ferraz, 2017)

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RESIDÊNCIA VIA [2]

Thiago Trindade. Planta que não dá nada: uma epopeia arbórea no caos urbano (2017). Residência artística VIA.  Porto Alegre-RS-Brasil: Sala OM-LAB no Vila Flores, outubro/2017. 

"Uma rápida incursão no Quarto Distrito de Porto Alegre revela muros invisíveis, separando territórios de fronteiras não declaradas - mas (re)conhecidas por todos na região – tal qual zonas de abandono com ares de pós guerra pareadas a outras nas quais a vida floresce e passa frenética, sem tempo para um cumprimento. Às vezes é só preciso atravessar uma rua para ser transportado para uma sucessão de dimensões paralelas tão distintas entre si e tão gritantes a um olho disposto quanto invisíveis e pixeladas à visão cauterizada das vítimas da rotina e da hipermodernidade mas que, seja como for, apresentam-se em sobreposições de camadas imagéticas e sonoras sobrepostas como um grande borrão. 

Deambulo, perambulo. Salto entre as dimensões aterrissando em cada uma com pés que ensinam os olhos a enxergar e permito que coisas ordinárias, do nada, me despertem da inércia de torpor. Vejo a aleatoriedade e irresponsabilidade do plantio de seres clorofilados, o descaso com sua manutenção que, potencial ou efetivamente, são causa de transtornos. Percebo espécies listadas como ‘invasoras’ em profusão sobrepujando as nativas e, ao atentar para isso, em poucas quadras conto mais de 100 palmeiras de variados tipos assim como as ‘funções’ aparentes em suas inserções na já ruidosa paisagem urbana e vejo que, do Brasil colônia para cá, a de “carimbo de validação social” se mantém inabalável". (Thiago Trindade, 2017)

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RESIDÊNCIA VIA [3]

Talita Procópio. Via dupla (2017). Residência artística VIA.  Porto Alegre-RS-Brasil: Sala OM-LAB no Vila Flores, outubro/2017. 

 

"Lugares imensos, lacrados, abandonados; muitos deles fortemente protegidos por verdadeiras muralhas de ferro, cimento, vidros, arames, pregos, e cachorros. Ninguém passeia ali. Eu me flagrei às vésperas de um desespero ao constatar que não conseguia identificar uma coisa que fosse na rua em que me encontrava que não parecesse hostil, tudo indicava que eu não deveria estar ali. Queria ficar invisível, e poder assim interagir com as estruturas, subir os muros, espiar pelas frestas, ver o que ficou parado no tempo dentro daqueles paredões. E, em uma conversa com meu amigo e colega Kevin Nicolai, ele sugeriu que eu vestisse um macacão verde e grande, que tinha sido usado por algum cozinheiro do exército; e com esta “camuflagem” poderia caminhar quase despercebida pelo Quarto Distrito, pois me confundiria com algum funcionário das indústrias que ainda existem por ali. Pela primeira vez, minha presença ali era ignorada". (Talita Procópio, 2017)

Link 1:  MVI 1826

Link 2:  MVI 1764​

Link 3:  MVI 1782

RESIDÊNCIA VIA [4]

Peter Gossweiler. Un Tango por la Ventana - (2017) Residência artística VIA.  Porto Alegre-RS-Brasil: Sala OM-LAB no Vila Flores, novembro/2017. 

 

 

"Por um vídeo muito quieto de uma janela aberta, soa um disco de tango. Ouvimos, por 15 minutos o som que vem da rua e sete músicas cantadas por Carlos Gardel. Esta ventana nos posibilita cruzar, saber que pasamos de un lugar para el otro." (Peter Gossweiler , 2017)

Link 1: Un Tango por la Ventana (2017)

RESIDÊNCIA VIA [5]

Flávia Quadros. Inventários (2017). Residência artística VIA.  Porto Alegre-RS-Brasil: Sala OM-LAB no Vila Flores, novembro/2017.

“Inventários (2017) lida com marcas e resquícios imprecisos de dois momentos da história do quarto distrito. As pequenas relíquias coletadas das árvores próximas à via trazem à presença a origem da região como polo industrial, a partir do aterramento do Guaíba para a instalação do Porto e da transformação do antigo Caminho Novo - então margem do lago -  na Rua Voluntários da Pátria. As texturas e padrões de telhados e revestimentos dos antigos prédios em torno do sótão do Vila Flôres lembram a decadência do Distrito Industrial. Restos inventados, intuídos, coletados, embaralham história e imaginários latentes aproximam surgimento e ocaso da opulência econômica do passado desse território em permanente transformação e movimento”. (Flávia Quadros, 2017)

RESIDÊNCIA VIA [6]

 

Deni Corsino. Estratégias C: Interações experimentais (2017-2018). Residência artística VIA.  Porto Alegre-RS-Brasil: Sala OM-LAB no Vila Flores, dezembro/2017-janeiro/2018.


“Que interações poderiam surgir naquele espaço que eu conhecia mas que o explorava aberta a novos olhares, que instrumentos se ofereciam à minha presença? Entre as minhas descobertas de objetos que povoam o Vila Flores, encontrei três cubos de madeira embaixo da pia da cozinha, os quais eu nunca havia visto. Talvez não estivessem lá antes. Talvez apenas o meu gesto de explorar o local através de novos movimentos do meu corpo em relação aos elementos do Vila Flores fosse o disparador que faltava para gerar novas interações. Logo, desloco estes cubos de seu lugar original. Descubro que sua razão de ser é para prender as portas. Começo a utilizá-los como objetos mediadores de experiência em um lugar de passagem - o corredor do nosso atelier, aquele por mim praticado com muita frequência - e, assim, crio permanências neste corredor”.  (Deni Corsino, 2018)

RESIDÊNCIA VIA [7]

Lucas Strey. Amala (2018), performando na Rua Câncio Gomes em um ponto de prostituição diurna do 4° Distrito. 

Período:  2/2018

Catálogo: https://issuu.com/ttbarachini/docs/cafe_com_sal

"Amala (2018) é uma escultura em processo e, em algum sentido se aproxima do objet truvé dos surrealistas. Em uma das minhas caminhadas encontrei uma mala presa ao topo de uma grade de um terreno baldio próximo ao Vila Flores. Em outro dos meus deslocamentos procurei uma parte mais movimentada e adensada do 4º Distrito de Porto Alegre. Foi então que em meio a tanto movimento vi duas pernas estaqueadas para fora de um entulho. Meio manequim feminino, praticamente novo, parecia que estava a minha espera. O corpo é um objeto diferenciado, sobre o qual não possuímos um conhecimento fenomênico, não o percebemos como um objeto de fora, pois o vivemos de dentro. Nesse sentido unir a representação do corpo na forma de um manequim a um objeto funcional como uma mala antiga, é pra mim, um contraponto a noção de corpo, de objeto e da percepção do mundo, potencializados pelo contexto do encontro com estes objetos.  (Lucas Strey, 2018)

RESIDÊNCIA VIA [8]

Bruno Novadvorksi. Farrapos (2018),

Vídeoperformance.

Período da residência: 2018 

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Ficar nu nada mais é do que um disparador de experiências. Minha pesquisa parte de inquietações em relação a possibilidades de costuras entre o corpo e o sexo na arte contemporânea. Desde criança transito pela Avenida Farrapos em Porto Alegre percebendo sua movimentação em relação a uma de suas características mais marcantes que é a presença de profissionais do sexo. A videoperformance Farrapos (2018) surge como um resgate das minhas memórias. E agora durante a residência artística abordei a sexualidade explícita deste lugar.(Bruno Novadvorksi, 2018)


 

Link:

https://novadvorskibruno.wixsite.com/portfolio

https://www.youtube.com/channel/UC5NJawpXtFnwYXqG3QPmtZg

https://www.openprocessing.org/user/148506

 

RESIDÊNCIA VIA [09]

Dani Amorim, Endo (2018) - Full HD 2’35”

Período da residência: : 13/08/2018  a 31/08/2018

 

Ao longo de duas semanas, perambulei pelo 4º distrito de Porto Alegre, região onde cresci. Voltei meu olhar às fachadas, muros e seus pixos femininos e feministas. Partindo primeiramente do registros desses pixos, passei a refletir e pesquisar questões relacionadas à mulher na sociedade atual. É interessante encontrar tanta vida, súplica e empoderamento numa zona tida por muitos como destituída de identidade.

Inicialmente gravei, nua, definições das palavras Corpo e Mulher, dentro da sala do OM-LAB no Vila Flores, e após esta primeira experiência gravei a videoperformance Endo (2018), dessa vez na laje da casa da minha mãe, no 4º Distrito, a céu aberto. Em Endo (2018) eu me dispo de uma capa de chuva “invisível”, que acaba por revelar meu corpo nu. Ao fazer isso, estou questionando o pudor que nos leva a sermos vistas como objetos, pois se não existisse esse pudor, talvez o corpo da mulher passasse de objeto intocável - e por isso sabemos que, muitas vezes, violável - à condição de corpo humano.

(Dani Amorim/2018)

RESIDÊNCIA VIA [10]

Guilherme Augusto de Magalhães. Trocar uma ideia (2018),

Período da residência: 03/09/2018 - 17/09/2018

​Durante a experiência da Residência Artística Via eu estive interessado em me reunir para conversar. Foi um convite à praia, dividir o intervalo de uma tarde, onde nos acomodamos na dupla de cadeiras e aproveitamos o tempo para criarmos, juntos, memória. Sejam mesmo memórias, antigas ou novas, também ideias e projetos, discussões calorosas, manifestações, frases inesperadas, já esperadas, interrupções certeiras, declarações de amor infinito. O íntimo transborda na conversa a dois. É uma confissão, um sussurro, coisas ditas de olhos marejados. Abro a cadeira, ofereço o tempo, a fala, a escuta, e ouço. Conto, ouço, choro. Conto, ouço, respiro, concluo, sigo. O lugar que construímos quando vamos juntos a praia, trocar uma ideia, é mágico. Na oferta de uma tarde na praia: conversamos. Esta é a experiência. A experiência de sentar e conversar. Aqui, eu e você, agora. Senta aqui, vamos conversar.(Guilherme Augusto de Magalhães/2018)

RESIDÊNCIA VIA [11]

Carolina Kneipp. Para habitar o desconforto (2018)

Período da residência:18/09/2018 a 03/10/2018

 

Ao longo da residência me percebi, muitas vezes, desconfortável com a ideia de explorar os arredores do Vila Flores, paralisada em decorrência do temor que acomete o meu corpo toda vez que decido percorrer sozinha qualquer trajeto desconhecido na cidade. Pensando nisso, me dediquei a bordar em um tecido esse medo que me acompanha cotidianamente, nesse momento reforçado pelo estigma de ‘perigo’ incorporado às proximidades do local onde estava produzindo o trabalho. Construí, assim, uma espécie de cobertor. Um objeto simbólico que remete ao interior de um quarto infantil, à estratégia mais eficaz da infância para esconder-se dos monstros que moram no armário. Um cobertor que, no entanto, expõe mais do que esconde: não me torna invisível nem camuflada, mas destacada enquanto ‘corpo estranho’ na paisagem; que traz, em sua superfície, marcas do medo gerado pela violência urbana e o desconforto experimentado ao trilhar caminhos em uma cidade que se configura em um ambiente agressivo, sobretudo para as mulheres que a habitam. [...] Coberta por esse pano eu me sentia anônima, disforme e assim protegida de olhares ameaçadores. Caminhava sem direção, e, pela primeira vez, disposta a operar pausas em meio a tantas idas e vindas subordinadas à velocidade do passo que tem em seu destino a chegada em algum lugar seguro. Pude, finalmente, em um curto espaço-tempo, ficar um pouco mais. (Carolina Kneipp/2018)

RESIDÊNCIA VIA [12]